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A POBREZA QUE AFETA A 4º MAIOR CIDADE DO MUNDO

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Foto: Folha - Uol

A cidade de São Paulo, a mais populosa do Brasil e um polo reconhecido mundialmente por ser a 21º economia global, sofre de um problema recorrente no cenário social: a desigualdade.

 

A disparidade econômica, social e humanitária apontada na capital paulista aumentou substancialmente após mais de dois anos de pandemia, e os índices de pobreza foram alarmantes - segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), 19,7% da população de São Paulo vive em situação de pobreza. 

 

Isso significa que a desigualdade social persegue o estado brasileiro e o corrói diariamente com uma realidade perturbadora, na qual pessoas sofrem com a falta de recursos básicos, como comida, saúde e moradia dignos. Nesse sentido, enquanto a indústria agrícola bate recordes mundo afora, os pratos brasileiros continuam vazios.

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Além da Economia

Além disso, é sabido que as nuances da pobreza abrangem muito mais do que somente a parte econômica. Mesmo porque a economia está intrinsecamente relacionada às questões sociais, humanitárias e culturais. Dessa forma, o SP Desigual conversou com uma jornalista especializada em meio ambiente, Nicole Gasparin, para comentar sobre sustentabilidade, em uma abordagem voltada para a situação precária de mulheres em período menstrual para denunciar as dificuldades de lidar com a pobreza sanitária.

 

Diante desse cenário de fome e desigualdade, as denúncias da pobreza na capital são cada vez mais alarmantes e demonstram um contexto marcado pela falta de investimento em educação.

Pobreza na Capital

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Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Após dois anos de pandemia, a população de rua cresce 31% e alcança 31.884 pessoas na capital, segundo censo realizado pela Prefeitura de São Paulo. 

 

A miséria a que o Brasil está submetido levou milhares de pessoas a perderem a moradia e viverem nas ruas da maior cidade da América Latina. Em 2019, o número era de 24.344, e se for considerar dados de 2015, a população sem moradia dobrou - à época eram 15.905 pessoas morando nas ruas de São Paulo. 

 

Para o jornalista da rádio Jovem Pan, Daniel Lian, o combate efetivo contra a desigualdade social provém da conciliação de políticas públicas com parcerias privadas, já que o terceiro setor tem um papel importantíssimo no combate às desigualdades. Porém, o principal empecilho é a corrupção existente em nosso território nacional, o que acaba tornando o panorama mais danoso ainda.

   

Lian também discorre que a melhor alternativa para gerar uma melhoria de vida e de renda aos menos favorecidos é a educação, e mesmo assim, o Brasil investe pouco neste setor. Ele ainda utiliza como exemplo a Coreia do Sul, que há poucas décadas tinha um panorama parecido com o brasileiro, porém, investiram no ensino, e com isso, atualmente é um país desenvolvido e com grande potência tecnológica. A partir do investimento em educação, a economia irá crescer consideravelmente, e com isso, desenvolver outros setores, como o trabalhista, conclui o jornalista.

Para que as camadas menos favorecidas possam se desenvolver, o investimento maciço em educação é estritamente necessário. Com isso, novas oportunidades de vida e de emprego surgirão, melhorando a questão da fome na capital, problema que é realidade na rotina de muitas famílias paulistanas. De acordo com um levantamento feito pela secretaria municipal da Saúde de São Paulo, várias famílias famintas da capital paulista procuraram doações de alimentos em postos de saúde, principalmente na Zona Sul da cidade.

Como a fome afeta os paulistanos

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Foto: Reprodução/Freepik

É comum que as pessoas relacionem a situação da fome em São Paulo com a pandemia. Uma vez que, durante esse período, houve um aumento dos níveis de insegurança alimentar dentro da população mais vulnerável, o que ocorreu devido a falta de emprego e auxílio emergencial. Contudo, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística) revelam que o agravamento da fome no Brasil é anterior à pandemia, quando quatro em cada dez famílias já viviam em estado de fome. 

 

Segundo o relato de Renato Maluf, ex-presidente do Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional) e professor do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, a pandemia afetou mais fortemente os mais vulneráveis e ampliou a insegurança alimentar dos setores vulnerabilizados, porque perderam renda ou porque tiveram dificuldade de acesso aos alimentos.

 

Um aliado do combate à fome deveria ser o Agronegócio Brasileiro, que possui um papel social muito importante, pois as atividades da agricultura e da pecuária não movimentam somente a economia brasileira, mas também mexe com a situação social e de renda de milhares de brasileiros. O setor deveria, em tese,  ter responsabilidade social na alimentação dos brasileiros, geração de empregos  e desenvolvimento de negócios. Mas parece que esse não é o cenário atual brasileiro.

Agro é fome

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Foto: Kasun Chamara/Pixabay

A indústria agrícola atinge números não alcançados há 18 anos enquanto a população passa fome. Nos últimos anos, a insegurança alimentar voltou a figurar no cotidiano da população brasileira. No entanto, o agronegócio é responsável por 27,4% do PIB brasileiro, a maior desde 2004 (quando foi de 27,53%).

 

O “celeiro do mundo” sustenta indústrias alimentícias ao redor do mundo ao mesmo tempo em que 59% de sua população sentiu o gosto da fome em algum momento da pandemia de Covid-19, como indica a pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil”, coordenada pelo do Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia, com sede na Universidade Livre de Berlim.

 

Nesse sentido, a maior parte da agricultura é voltada para exportação em detrimento do auto sustento de sua população, o que significa dizer que o latifúndio e a agricultura familiar são modelos contrastantes tanto em tamanho quanto em função. E é fácil entender o porquê: no Brasil, 2 mil latifúndios ocupam área maior que 4 milhões de propriedades rurais

Agricultura Familiar

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Foto: Reprodução/Twitter

Atualmente, na indústria latifundiária, o Brasil adota uma lógica de monocultura, sendo o maior exportador de soja no mundo. Cerca de 33 milhões de hectares são usados para a produção do grão, o qual é utilizado principalmente para fabricação de ração animal no mundo todo. Já a produção familiar representa 70% de toda alimentação do povo brasileiro e 5% do PIB tem origem nas propriedades dos pequenos produtores rurais. 

 

Estudos enxergam a agricultura familiar de forma análoga aos movimentos feministas anti-sistêmicos, em que também associa suas lutas por emancipação sociopolítica à luta contra a invisibilidade das práticas de trabalho solidário intrínsecas ao seu modus operandi econômico. Isso explica o pouco interesse em seu incentivo e promoção diante do sistema atual.

 

Dessa forma, enquanto for mantido o atual sistema de produção econômico, a atuação do agronegócio brasileiro se resume ao interesse financeiro de grandes empresários, enquanto é ignorada a garantia da segurança alimentar pública.

O braço do Estado na periferia

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​​O estado brasileiro, em tese, enxerga toda sua população de maneira igualitária. Estado esse que se propõe fornecer a sua população: saúde, educação e segurança. Estado com comportamento bem diferente da teoria. Nas periferias percebemos um enorme déficit desses aspectos, a saúde é precária, a educação sucateada, porém, a situação mais crítica é em segurança pois a instituição encarregada de assegurar-lá acaba causando violência e mortes na grande maioria dos casos, instigando um sentimento de medo e apreensão constante da população menos favorecida.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Saúde

 

A saúde na periferia é negligenciada historicamente. “Às oito e meia da noite eu já estava na favela respirando o odor dos excrementos que mescla com o barro podre. Quando estou na cidade, tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludos, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo”. Assim descreve Carolina Maria de Jesus, o contraste entre a favela e a cidade. A autora do clássico Quarto de Despejos escancara a situação insalubre em 1958, porém tais condições ainda estão presentes em diversas periferias brasileiras.

 

Educação

 

A educação pública no Brasil é um problema historicamente, quando colocada uma lupa sob a periferia brasileira percebemos um estado ausente e desinteressado. Durante o período da pandemia, por exemplo, foram diversos os relatos de escolas sem condições de oferecer ferramentas para o EAD ou até mesmo papel, lápis ou canetas. “Ela não tem um lápis, uma caneta e não temos como comprar. Moramos em uma casa de um cômodo, com cinco pessoas, não tem espaço para ela fazer lição”, contou Cindy Santana, a mãe de Raphaela dos Santos, de 4 anos. A família ainda não recebeu o material didático que a prefeitura disse que vai enviar às casas dos alunos.

 

Segurança

 

Sem dúvidas o braço do estado mais presente na periferia é a força policial militar. Em dez anos, entre 2001 e 2010, 93% das pessoas que morreram em supostos tiroteios com a Polícia Militar em São Paulo moravam na periferia. A violência policial assola a população periférica seja nos assassinatos, abordagens truculentas e a formação de milícias. Segundo pesquisa do DataFavela, 50% das pessoas que vivem nas periferias do Brasil dizem sentir medo da polícia. Dados que evidenciam mais um fracasso do estado em assegurar condições básicas de cidadania. Neste caso, causando ao invés de um sentimento de segurança, causa medo nos moradores da periferia.

Pobreza menstrual é assunto de desigualdade e violação de direitos

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A dignidade menstrual está vinculada diretamente com o acesso a saneamento básico,  à falta de acesso a recursos, infraestrutura e conhecimento para que tenham plena capacidade de cuidar da sua menstruação. 

 

 O relatório chamado “A pobreza menstrual vivenciada pelas meninas brasileiras” da UNFPA e do UNICEF traz à luz os pilares deste fenômeno complexo e transdisciplinar e explica que a falta de acesso à produtos adequados para o cuidado da higiene menstrual (absorventes, coletores menstruais, calcinhas menstruais, papel higiênico e sabonete), a falta de medicamentos para administrar problemas menstruais; a insuficiência de informações sobre a saúde menstrual e autoconhecimento sobre o corpo e os ciclos menstruais e os tabus e preconceitos sobre a menstruação resulta na segregação de pessoas que menstruam de diversas áreas da vida social

 

 

 

Nesse sentido, é estimado pelo relatório da ONU que no Brasil 1,24 milhão de alunas de escola pública não têm  acesso a papel higiênico nos banheiros onde estudam, 3,5 milhões dessas alunas não disponibilizam de sabão para lavarem as mãos, levando a estatística dada pelo site Absorvendo Amor. Ou seja, em muitos casos elas devem escolher entre ir à escola ou cuidar da saúde íntima em períodos menstruais. 

Foto: Pantys

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Foto: Revista Galileu 

Questões estruturais

 

Além da falta de conversa e produtos para a higienização íntima correta, ainda há a questão dos banheiros, que na teoria deveriam possuir trancas garantindo a privacidade, além de estarem localizados em locais seguros, contando com meios para lavar e eliminar produtos menstruais da forma correta. O que é sabido que não acontece. 

 

Desta forma, foi estimado pelo relatório da ONU que 632 mil meninas vivem sem acesso a um banheiro de uso comum nas suas casas. E 237.548 meninas vivem em situação de extrema vulnerabilidade, podendo estar em uma situação de defecar a céu aberto.

 

Com base nestes pilares, diversas pesquisas apontam que em várias regiões do mundo mulheres precisam utilizar soluções improvisadas para conter o sangramento menstrual, não seguindo as recomendações ginecológicas de trocar o absorvente de três a seis vezes por dia.  

 

Dentre essas outras alternativas, as escolhas de como se higienizar variam entre pedaços de pano usados, roupas velhas, jornal e até miolo de pão. Segundo o site Absorvendo Amor 26% das meninas entre 15 a 17 anos não têm acesso a produtos de higiene íntima, o manejo inadequado da menstruação pode acarretar em múltiplos tipos de problemas, como alergias e irritações da pele e mucosa, infecções urogenitais como a cistite e a candidíase, e em casos mais graves uma condição  nomeada como Síndrome do Choque Tóxico que pode levar à morte.


 

 



 

 

 

 

 

 

 


 

Existe solução para a pobreza menstrual?

 

A jornalista do O Globo, Nicole Gasparin, acredita que deveria haver a distribuição gratuita de absorventes uma vez que é um item de higiene vital e não acessível. Nesse sentido, o site Absorvendo Amor aponta que 9,8% da renda mensal de famílias monoparentais feminina tem de ser destinada apenas à compra de absorventes para manter uma higiene adequada. Além disso, a jornalista explica que é necessário uma educação abordando a necessidade do absorvente, para o convencimento do fornecimento sem custo. 

 

Nicole defende também que apesar disso aumentar o descarte e por consequência a poluição, este problema seria facilmente resolvido já que os absorventes de pano são muito viáveis, além de que na indústria têxtil sobram muitos retalhos que poderiam ser reutilizados.  


Muitos com pouco, poucos com muito

Foto: EL PAÍS, Brasil

 

Segundo o jornalista Daniel Lian, “a melhor alternativa para gerar uma melhoria de vida e de renda aos menos favorecidos é a educação, mas, mesmo assim, o Brasil investe pouco nesse setor”. Isso significa dizer que, enquanto a educação não for a pauta principal nos assuntos do governo, cenas de desigualdade continuarão sendo comuns no cotidiano brasileiro. 

 

Por esse viés, não é novidade que os cidadãos da 4ºa maior cidade do mundo vivenciam diariamente cenas de pobreza, principalmente no centro. Como forma de abrigo em grandes viadutos e pontes, 8,8% das pessoas que vivem em situação de rua moram embaixo dessas construções para se abrigarem, de acordo com o Censo da População em Situação de Rua em 2019. Estima-se, entretanto, que esse número tenha mais que dobrado com a pandemia.

 

O cenário de desigualdade em São Paulo está cada vez pior. A pobreza transformou a capital em um verdadeiro campo de exclusão, em que o direito básico à moradia, saúde e alimentação lhes está sendo negado. Assim, enquanto uma parte considerável da população vive com muito, uma grande maioria vive com pouco. E assim seguem as nuances da 4º maior cidade do mundo. 

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Foto: Pinterest 

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